domingo, 17 de fevereiro de 2013

É legal ver um filme e ficar triste porque o filme é triste e sair lendo um monte de texto antigo e postar tudo no blog dos amigos e começar a vomitar um monte de coisa na sua própria cabeça porque alguma coisa mudou mas continuou igual e mesmo assim nesse momento não cabe vírgula. só ponto. beijos.

O tempo de Alice


                Impaciência. Ansiedade. Inércia. Tiques nos olhos. Pernas balançando nervosamente. Badalar de relógios. Espera na fila. Espera por filmes. Espera para começarem as aulas. Espera para acabarem as aulas. Espera para chegar a noite. Espera para começar o dia. Diziam às vezes que a paciência não é uma virtude e Alice concordava veemente com isso, afinal, era do tipo que não tinha muitas virtudes.
            Certa vez o tédio era tanto que se pegou sozinha com duas janelas, esperando o tempo correr. Eram apenas duas janelas retangulares, lado a lado. Não deixavam passar o tempo e não deixavam passar o ar, quebravam sonhos e devaneios. Eram apenas duas janelas, talvez malignas num momento entediante, mas apenas duas janelas. O tempo era lento de toda forma.
            Ao fazer quinze anos decidiu esperar uma mudança acontecer na vida, algo que a tornasse diferente de uma lesma catatônica em estado inerte. A permanência era irritante, mas não tanto quanto a perspectiva não consumada da metamorfose. Cansou-se de esperar. Não mudou.
            O sinal vermelho era um exercício mental diário, treinamento da não-virtude paciência. O verde seguia, mas não necessariamente em frente. O amarelo era expectativa e, portanto, doloroso; tarde demais para prosseguir e cedo demais para parar. A partir de quantos anos se é permitido olhar para trás e se arrepender do que não fez, mesmo? Passou tempo demais esperando a resposta. Deve ter chegado à idade.
             Esperava uma finalização marcante, mas surpreendentemente algumas coisas na vida surgem de surpresa e encerramentos costumam ser difíceis quando não se deixou muito para se finalizar. O fim foi mais ou menos como a vida, cheio de esperanças não correspondidas, afinal, ao contrário do tempo, o mundo não desacelera na presença da morte.

Um texto chato sobre o início fadado a acabar das impressões de um calouro no curso de comunicação

Neste domingo nostálgico, percebi que meu curso já começou acabado. Encontrei este texto lindo que mostra minha motivação com o curso, ainda no segundo período. Agora, como aluno sem período a sensação de inércia é maior. Segue o tédio:

SOBRE O PAPEL SOCIAL DA MÍDIA

“Conscientizar”. “Informar”. “Educar”.  São os três verbos-chave que parecem formar a noção idealista em estudantes de comunicação sobre o papel social da mídia; “Transportar os discursos de pensadores e os sistemas filosóficos acadêmicos para o senso comum” é o que parece vir de bônus. Não é surpresa (para não dizer ser um clichê), que se a mídia tinha tal objetivo utópico a ser seguido, sua história acarretou num fracasso quase absoluto. Talvez eclipsados pelos interesses privados e públicos, que hoje parecem ser um só, os meios de comunicação terminaram se transformando numa espécie de instrumento de manutenção do sistema vigente: algo que, se sim, educa, informa e conscientiza, o faz de forma, no mínimo, pouco radical. É um “si, pero no mucho”. Como um noticiário que ensina a reciclar, mas não aponta os meios de produção como insustentáveis ou um jornal que muda sua pauta sobre acidentes em estradas para não perder a parceria com a concessionária que anuncia no seu espaço publicitário. Talvez não seja necessário falar sobre as distorções na camada mais básica do jornalismo: como os famosos casos de repórteres que não confirmam suas fontes e arruínam carreiras e vidas por causa de seus erros ou as vezes em que notícias são amplamente manipuladas para atender os interesses de algum grupo; mas, de toda forma, sejam numa camada mais micro ou macroestrutural, vale relembrar que as distorções existem.
            Para Habermas, o processo de ascendência do sistema capitalista fez com que a mídia perdesse o caráter libertador que incentivou a população francesa a derrubar monarquias, na medida em que era colonizada pelos interesses privados e tornava a sociedade cada vez mais desencantada com o mundo que se tornava maior, aumentando, continuamente, a sensação de impotência da população. Seu colega frankfurtiano, Adorno, foi além e afirmou que na busca por conquistar maior público, a mídia tendia a desenvolver um caráter de maior entretenimento          e passaria a “espetacularizar” muito do que ainda havia de informativo (e sério) em sua época. Falta de fé ou não, foi, de fato, o que aconteceu com a grande mídia.
            Para mim, uma imagem resume coerentemente as grandes mídias atuais: um comercial de margarina, com uma família bonita, numa casa de campo, uma música suave e muitos sorrisos no rosto. É o conjunto de idéias que noticiários, novelas e outras formas do que hoje se têm como propagandas carregam em suas mensagens. É o objetivo central da mídia que foi alterado: a libertação se tornou tornar agradável. Tornar agradável um sistema de vida que, no caminho que vai pra frente, pode apenas dar uma falsa ilusão de que as coisas estão, de fato, caminhando, quando, em outra mão, se aprofunda nos interesses e poderes dos que nada querem mudar. Assim, do comercial de margarina para os três verbos nas bocas dos estudantes de jornalismo existe muito caminho pela frente. Ou, pensando bem, para as origens. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Coronária que espasma

Espasmo na coronária. Dor no coração. 


Ouve-se: Pergunta pra tua médica se causou dano e se tem como reverter.

Retruca-se: Reverter o dano no coração, dá não.

(Re)retruca-se: Mas tem que parar de sofrer. Pergunta como faz pra parar de sofrer.


O desespero indicava que a conversa não era mais sobre a coronária. Passou pr'alma.


Agora, dá pra parar de sofrer, mas não pra reverter o dano.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Morando Sozinha Sete Dias

Talvez eu não entenda, mas morar sozinho ou passar sete dias sem dividir um espaço de intimidade com alguém pode servir como pretexto para escrever a primeira vez aqui. A vida em casa sozinha não é difícil. Preparar comida congelada. Queimar comida congelada. Abrir uma lata de leite moça só pra satisfazer um desejo primitivo de suprir algo que ainda não descobri, finjo desconhecer. A rotina se torna sem sentido quando não se tem para quem preparar uma refeição. Quando não se tem com quem dividir a cama, o sofá, o banheiro. É igualmente difícil viver com pessoas e seus defeitos habituais, pessoas que se repetem da mesma maneira. Mas se não existe graça em preparar um prato que só eu vou julgar ou forrar uma cama em que só eu vou dormir e vê-la desarrumada, o que mais devo querer quando sinto a obrigação do retorno à minha vida compartilhada? Acho que tenho que me satisfazer com ambas situações pra conseguir viver um pouco da felicidade que existe em mim e no outro (que também é parte de mim). Não chorarei bobagens. Pior que estar sozinha durante sete longos dias na minha própria rotina é vê-la tão ausente de si própria.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A gente deveria ter um cachorro

Tem um cara que tem um poema que acho lindo e que vou escrever aqui com todas as pausas

"Sem chance de ajuda

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos melhores momentos 
nos melhores
tempos

nós saberemos

nós saberemos
mais que 
nunca

há um lugar no coração que nunca será preenchido


nós iremos esperar 
e
esperar

nesse 
lugar."

Foi no meio de um aula irreal de Realidade social econômica cultural brasileira que Daniel olhou pra mim e falou que Bukowski só dizia isso porque ele não tinha um cachorrinho.

Talvez o amor seja tudo aquilo que nós dissemos que não era


Nada mais bonito que descobrir que a pessoa amada levou
sem avisar
um livro 
que ela mesmo deu
chamado O amor é tudo aquilo que nós dissemos que não era